domingo, 3 de abril de 2016

Contrato

Existe, principalmente nos últimos tempos,  uma imagem que povoa o imaginário daqueles que adentram no mundo do bdsm.

A mulher submissa entra em algum lugar, seja o apartamento de seu dono, um quarto de motel ou uma dungeon pela primeira vez, e o dominador a arrebata, tomando-a de pronto, rapidamente ele a amarra, chicoteia, em suma, ele a domina de forma rápida e avassaladora. É quase uma versão bdsm do amor a primeira vista.

Não é que essa imagem não possa acontecer, mas até chegar a ela MUITA conversa aconteceu antes. E é isso que chamamos de contrato.

O contrato é onde ficam estabelecidas as regras da relação bdsm. Os desejos de ambas as partes, assim como os limites, tanto aqueles que podem ser testados quanto aqueles que devem ser deixados em paz. E isso tanto do lado da submissa quanto do dominador (falarei em outro momento sobre os limites do dominador).

Também, no contrato, é onde os parâmetros da relação fora da sessão bdsm também são decididos. Se a relação é restrita ao bdsm, se há um envolvimento afetivo ou amoroso de alguma forma entre as partes, quais os limites também de interação. Isso é particularmente importante quando dominador ou submissa possuem relações "baunilha", ou seja fora do âmbito do bdsm.

Tudo isso é importante para impedir que uma relação bdsm se torne uma relação abusiva. Infelizmente muitos dos novos doms e subs que adentram esse mundo, contaminados pela visão que o mundo baunilha tem de nós, ainda não compreendem a diferença entre esses dois extremos, e essa diferença está exatamente no contrato.

No contrato é preciso decidir a safeword, a palavra de segurança. Uma palavra (ou mais de uma, se assim desejarem) fora do contexto da sessão que signifique que algo não está bem. Seja porque a dor está insuportável, seja porque alguma lembrança psicológica foi ativada, seja porque os sentimentos não estão alinhados com a prática naquele momento. Até porque, se uma submissa começar a gritar "Pare! Não estou aguentando mais!" enquanto estou a torturando, isso é música para os meus ouvidos, mas se ela fala, mesmo que em um sussurro "vermelho", é o momento de parar tudo e ver o que está acontecendo.

Nota: Estabelecer um movimento corporal como uma segunda safeword é uma boa ideia para quem curte uma mordaça.

Já ouvi falar de pessoas que tem relações bdsm e não possuem palavras de segurança. Não concordo com esta prática. Mesmo que essas pessoas tenham um grau de intimidade e relação onde eles nunca precisarão de uma safeword, estabelecer uma, na minha opinião, é uma das bases para uma relação sã, segura e consensual.

O contrato pode ser escrito ou pode ser apenas uma conversa onde dominador e submissa estabelecem o máximo de detalhes sobre sua relação. De qualquer forma, é uma longa conversa e raramente termina ao "assinar" o contato, pois as relações são coisas vivas, estão sempre mudando, novas vontades e desejos podem surgir, assim como novos limites. Claro que isso não impede momentos em que esta conversa é feita sem a menor troca de palavras.

Apesar de ter usado apenas os termos dominador e submissa, o contrato é importante para qualquer relação top/bottom, quaisquer que sejam as denominações e práticas. Aliás, acho que até relações baunilhas deveriam ter algo assim. Com certeza se beneficiariam muito.